19 ago

Sobre touros, Picasso e a simplicidade: como um livro quer mudar o mundo a partir das cidades

Picasso 2

Uma das melhores metáforas da vida que conheço está presente em uma série de onze litografias de Pablo Picasso, chamada “Touro” (foto) (http://www.artyfactory.com/art_appreciation/animals_in_art/pablo_picasso.htm). Ali, o espanhol decompõe o animal até, finalmente, ficar restrito à sua essência. É uma obra impressionante, à qual é difícil ficar indiferente.

Picasso 1

Desde a primeira vez em que a vi, pareceu-me óbvia a maneira como a obra sintetiza a vida, a nossa relação com as pessoas, as coisas e as ideias. No fundo, tudo se resume a uma palavra: simplicidade. Menos é mais. Como o “Touro”.

Viver é simples e, com certeza, a maior parte das respostas que buscamos são simples. No entanto, o processo de se chegar a essa simplicidade é complexo e exige de nós – assim como foi feito nas litografias de Picasso – a capacidade de identificar e retirar o supérfluo até chegar ao espírito do que buscamos.

O motivo dessa divagação a respeito de Picasso, touros e simplicidade tem a ver com um conjunto de ideias expostas no livro “Mudar o mundo a partir das cidades: em busca da sociedade 4.0”.

Escrito em 2014 pela jornalista e doutora em Educação, Adriana Silva, a obra reúne as ideias defendidas pelo Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais – do qual Adriana é presidente -, em especial o processo de mudança social a partir da aplicação do princípios da Teoria U e do Design Thinking.

Em síntese, esse processo de mudança está assente no desenvolvimento de redes de cooperação que agem a partir das cidades e é aí que a coisa começa a ficar MUITO interessante.

Em uma das subdivisões do livro, chamada “Modelos de formação de Redes de Cooperação”, Adriana apresenta algumas ideias para uma gestão mais eficiente das cidades. [Na verdade, é um pouco mais complexo do que isso, mas a afirmação não é, de todo, incorreta]. As cinco sugestões que ela expõe serão apresentadas neste site, a partir de amanhã.

Mas existe uma sexta proposta, que talvez seja uma das ideias mais simples mas, ao mesmo tempo, de execução extremamente difícil, que diz respeito a um processo de (re)construção da Cidade. Basicamente é um conjunto de ideias sobre como uma comunidade quer a sua cidade nos próximos vinte ou trinta anos e os meios de se chegar até lá. Parece um Plano Diretor? Parece, sim, mas é mais do que isso, no mínimo pela presença implícita de mecanismos de defesa contra interferências político-partidárias ou de lobbies econômicos (embora, em alguns casos, um seja a extensão do outro).

Antecipando parte do que será exposto aqui, cito um trecho. No item “Empoderamento da sociedade: aplicando a Teoria U”, a autora afirma que “… a estrutura política brasileira, pensando nas cidades, se apresenta equivocada, quando concebe e permite que os municípios sejam conduzidos por candidatos eleitos, para realização de programas de governo elaborados por suas equipes, às vésperas de cada processo eleitoral”.

O que daí se segue é algo impressionante, pelo impacto que poderia causar na gestão de uma cidade caso viesse a aplicado. E, falando em Picassos e touros, é de uma simplicidade absurda.

Mas isso é um assunto que fica para amanhã, quando começamos a falar não apenas dessa proposta (fantástica, a meu ver) e das demais que estão no livro. Até lá.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.