21 jun

Do que Ribeirão Preto precisa para se tornar uma cidade criativa e qual o papel da cultura nesse processo?

Skyline-Shapes-BackgroundsNo início de junho, Ribeirão Preto realizou mais uma edição, a terceira, dos seminário Agenda Ribeirão 2016. O evento é promovido pela OA Eventos e realizada pelo jornal A Cidade, rádio CBN, com o apoio da EPTV. O objetivo é discutir os principais problemas da cidade e, lógico, apresentar algumas ideias que possam ser aplicadas. Este ano, o tema sugerido foi “Cidades Criativas, Cidadania Ativa”, com a apresentação da palestra de um craque no assunto, a economista e urbanista Ana Carla Fonseca.

Na semana que antecedeu o seminário, o jornal realizou uma série de matérias a respeito do tema, todas inseridas no hotsite do Agenda Ribeirão 2016. Entre elas, uma entrevista bem interessante com Ana Carla.

Outro desses textos tinha por objetivo saber de arquitetos, engenheiros e urbanistas, do que Ribeirão Preto precisava para se tornar uma cidade criativa ou, pelo menos, começar a criar as condições para se tornar uma.

Entre os entrevistados com quem falei, esteve a coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unip de Ribeirão Preto, Carolina Margarido. O que ela me disse virou um artigo, enviado por e-mail, que publico abaixo. Nesse texto, Carolina apresenta uma bem-vinda visão crítica a respeito do conceito de cidades criativas. Achei um texto surpreendente, para dizer a verdade, que nos faz sentir incomodados, mas de uma forma boa, de nos fazer pensar em outros lados de uma ideia que promete muito (em todos os sentidos). Espero que gostem.

 

Ribeirão Preto e a cidade criativa

por Carolina Margarido

 
“Primeiramente, os governantes da cidade de Ribeirão Preto, em conjunto com a população, precisariam desenvolver um Projeto de Cidade, entendido como a cidade que se quer para o futuro. Isso obviamente considerando interesses coletivos, e não apenas aqueles que representam a ânsia de um pequeno grupo, com interesses específicos. Qual seria a imagem desta cidade que se deseja desenvolver, para a coletividade? Obviamente não podemos imaginar uma cidade completamente nova, a ser construída a partir de uma tabula rasa. Para além das especificidades geográficas e características próprias, há toda a questão histórica e as relações materiais e imateriais que delas surgiram.

Há uma infinidade de forças que devem ser detectadas e explicitadas, para que sejam rompidas ou potencializadas a partir desta imagem de cidade que a qual a coletividade busca como ideal. Partindo desta questão primordial, a difusão da economia monetária jamais poderia ser novamente colocada em uma situação de importância que se sobrepõe à necessidade do homem cuidar de si e do meio em que vive, e que fez no com que, até o momento, os espaços criados estivessem voltados aos princípios ordenadores da racionalidade capitalista. Isso porque está claro que a cidade que vimos surgir em consonância com esta postura passou a determinar os tipos e as qualidades das relações que nela se desenvolvem afetando, de forma indissolúvel, a subjetividade dos seus habitantes.

Daí surge a questão cultural: a cultura é algo diretamente ligado à subjetividade dos habitantes de uma cidade, surgindo com a cidade, a partir da tessitura destas diversas e diversificadas relações que dependem do movimento, do pertencimento, da ação e do pensamento. Não há, portanto, um papel específico da cultura pois ela não é um instrumento, não é uma ferramenta e não é algo a ser utilizado para determinado fim.

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Se a cultura desenvolvida em uma cidade não obtiver os meios necessários para seu próprio e independente crescimento e fluxo, a cidade torna-se apenas mais um exemplar de um mesmo modelo de cidade, que é o que mais observamos acontecer quando se estabelece metas para a cultura, ou quando se monetariza a cultura visando fins lucrativos específicos, ou captações com viés mercadológicos, mesmo que se diga que o objetivo final é a construção de uma cidade mais “bela e segura” para todos.

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Isso quer dizer, no fim, que a cidade criativa não pode estar embasada unicamente em desenvolver uma ‘economia criativa’, sendo esta vista como um tipo de economia que usa dos saberes e práticas exclusivas de uma localidade para geração de mais renda. Pode-se arriscar a dizer, inclusive, que esta forma de pensar a cidade e seus saberes específicos [a cidade gerida como uma empresa] corre o risco de ser transportada também para as Políticas Públicas da área da Cultura, ou ainda que a mesma agora serve aos seus princípios na construção daquela cidade adequada à fase de acumulação flexível do capital, gerando consensos e sensações de participação e respeito à diversidade, enquanto que o que se constrói são cidades cada vez mais excludentes, generalizadamente gentrificadas e que utilizam todos os seus espaços, símbolos, memórias, histórias e a própria diversidade cultural, agora valorizada, a favor de um só objetivo: gerar mais capital. E tudo isso com o apoio do poder público.
Coloca-se como observação o fato de nunca ter havido tantos programas públicos de incentivo à ação e à produção cultural, à preservação do patrimônio e da história, à diversidade e aos ‘saberes’, ao crescimento e ao desenvolvimento físico das cidades como agora e, concomitantemente, um aumento significativo da violência urbana em Ribeirão Preto.  Não coincidentemente esta atinge, especialmente, os jovens que, obviamente, sentem-se excluídos, deslocados e sem espaços de atuação, visto que não possuem ainda – na maioria das vezes – o poder de consumo necessário à sua participação em uma sociedade para a qual o cidadão é, antes de tudo, um consumidor da cidade e dos produtos dela derivados.
O objetivo maior das práticas capitalistas adotadas em relação à cidade contemporânea e sua esfera pública não é, enfim, a restituição de uma dimensão cívica à cidade, nem tampouco do indivíduo. A cultura ou “culturalização”, segundo a famosa filósofa brasileira Otília Arantes, tornou-se o objetivo principal e ingrediente indispensável da governabilidade e direcionamento dos gastos públicos; é através dela que as pessoas terão a sensação de estarem vivendo num mundo que dá vazão à participação e à democracia, um mundo que “respeita”, que minimiza os conflitos e elimina as disputas, mas valoriza e incentiva a diversidade, as manifestações culturais, o esporte, a história, a memória. Afinal, este é o papel convenientemente atribuído aos museus e centros culturais, aos shoppings e suas salas de cinema, lojas e supermercados, à televisão, ao computador e ao telefone.
Além disso, a adesão das Políticas Públicas na área da Cultura a este é vista também como forte indício de que não só a cidade, mas a cultura como um todo, encontra-se autonomizada e instrumentalizada à serviço desta ação de venda, através da elaboração metodológica de insumos para a criação de um ambiente urbano e cultural socialmente favorável à construção de ideias consensuais e unânimes sobre a identidade da cidade no passado, presente e futuro. Afinal, o consenso é extremamente necessário ao funcionamento deste grande empreendimento, a cidade.

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Um projeto de cidade que se liga à imagem de outra cidade, como foi o caso do intitulado Ribeirão Preto 2001 – Ação Estratégica para o Desenvolvimento, do primeiro governo de Antônio  Palocci Filho [1996], e que teve em Atlanta [EUA] um espelho para o desenvolvimento de Ribeirão Preto, por exemplo, mostra-se muito prejudicial pois, mesmo que explicado e justificado através de uma retórica discursiva, é fruto de uma ideologia construída por e para uma elite real e determinada: aquela que deseja um desenvolvimento econômico a qualquer custo, abrindo mão de qualquer controle social sobre o capital – nitidamente excedente na cidade.

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A ideologia da cidade criativa e do desenvolvimento cultural não pode, resumidamente, a meu ver, estar direcionada para aquela parte da população econômica e geograficamente menos favorecida, para que esta se sinta parte de algo, enquanto o restante das Políticas Públicas visa exatamente igualar um ‘pedaço eleito’ da cidade àquelas cidades-modelo da economia nacional ou mesmo global, deixando todo o restante à margem deste processo. Vimos, em Ribeirão Preto, a segregação espacial que este tipo de imagem de cidade causou, e continua causando.

Apenas se pensada a cidade como um todo único, com um sistema de transporte coletivo eficaz e acessível [como por exemplo os famosos veículos leves sob trilhos e as ciclovias] permitindo que todos tenham direito a todos os espaços e equipamentos coletivos da cidade, com o desenvolvimento de espaços públicos de qualidade e, consequentemente, com menor segregação espacial, a cidade tem chances de potencializar sua criatividade e cultura, intrinsecamente ligadas. Isso sem citar, obviamente, a sustentabilidade, reversibilidade e flexibilidade de todo esse processo que determina tamanho desenvolvimento.

Precisamos, enfim, construir uma ideia de cidade que contemple todos estes aspectos, e que se relacione a tudo o que Ribeirão Preto já alcançou, em termos culturais, no passado, presente e futuro. Isso seria uma cidade criativa.”

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